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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Marcha pela humanização do parto

Felizmente a resoluções do CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro) publicadas no dia 19 de julho, que veta a participação de médicos obstetras em partos em casa e proíbe a presença de doulas, obstetrizes e parteiras em partos hospitalares, foram suspensas no dia 30 de julho, até a decisão final.
Inacreditável imaginar que um órgão de medicina seja tão insensato e mesquinho. Dá para ver nas mãos de quem a gente coloca as nossas vidas e as vidas de nossos filhos. Ainda bem que existem pessoas de bom senso e medidas inteligentes foram tomadas para evitar esse absurdo. Mas isso em primeira instância. Precisamos unir forças e reivindicar o direito de toda mulher de escolher como, com quem e onde ter seus filhos.
No domingo, dia 05 de agosto, acontecerá uma marcha pela Humanização do Parto em algumas cidades brasileiras, sendo a concentração maior no Rio de Janeiro, Ipanema, posto 9, às 14h.



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terça-feira, 8 de novembro de 2011

O renascimento do parto natural

"Para mudar a vida é necessário mudar a forma de nascer"
                                                                             Michael Odent

Quando 90% das mulheres* de uma sociedade optam ou se deixam levar pela insensatez de uma cesariana, fica obvio que algo extremamente errado se implantou ali. Errado do ponto de vista biológico, emocional e espiritual. A ala médica perde sua credibilidade por propagar mentiras em benefício da sua conveniência. Perde a oportunidade de se engrandecer dando a luz. A mulher perde sua única chance de se conectar com o ápice de um ciclo, um ciclo que se desenrola a milhares de anos. Ela perde a sua única chance de se conectar com o poder de ser mulher.

A parto por cesariana tem sim sua benção, ele é capaz de salvar vidas em uma situação de emergência, mas esse tipo de situação representa menos de 5% dos partos.

O vídeo abaixo joga uma luz nesta quetão, ainda bem!




* 90 % dos partos realizados no sistema privado de saúde são cesarianas, segundo pesquisa realizada pela UNICAMP e divulgada no dia 11 de agosto de 2011.

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domingo, 30 de outubro de 2011

Afinal, quem inventou essa história de parto deitada?

Durante grande parte da história da humanidade a mulher deu a luz acompanhada de outras mulheres (parteiras) de cócoras ou sentada.

Em 1513, o médico alemão Dr. Eucharius Rosslin publicou o primeiro manual sobre gravidez para o grande público, “The Rose Garden for Pregnant Women and Midwifves”. Dividido em 12 capítulos, o livro ensinava como a mulher deve se portar durante e depois da gravidez, como retirar um feto morto da barriga, como o bebê se apresenta no útero (acreditava-se que o esperma masculino continha uma miniatura humana e que o corpo da mulher era um mero recipiente para o desenvolvimento do bebe), entre outros tópicos. Ele foi campeão de vendas por mais de 200 anos e foi traduzido em 5 línguas. É isso que conta o livro “Get Me Out – A History of Childbrith”, da jornalista norte-americana Randi Hutter Epstein.

Infelizmente, um dos maiores feitos do livro foi difamar as parteiras e dar início ao domínio masculino na sala de parto, já que o negócio se mostrava lucrativo entre as classes mais abastadas. As parteiras passaram a ser consideradas incultas e negligentes. Mas, sua reputação foi totalmente jogada na lama com o advento de instrumentos obstétricos, como a fórceps, obviamente desenvolvida pelo ala masculina.

Fórceps

Durante três gerações, praticamente o mesmo período em que o primeiro manual dominou o mercado literário sobre gravidez, uma família de médicos, de origem francesa na Inglaterra, foram os responsáveis por inventarem e implantarem o fórceps. Alguns livros de história atribuem a invenção ao médico francês Francis Mauriceau, mas diz-se que na verdade os Chamberlens tentaram vender a invenção para Mauriceau, mas a demonstração foi um fiasco, o útero da paciente rasgou e mãe e bebê não sobreviveram.

A propaganda era de que com a ferramenta, que só eles possuiam e sabiam usar, era possivel dar a luz mais facilmente e com segurança. A realidade não era bem assim. Mas a propaganda era boa e todas as mulheres inglesas com cacife, exigiam um Chamberlens. E por duas gerações eles trabalharam para a família real inglesa.

A popularidade dos Chamberlens foi o suficiente para colocarem as parteiras de escanteio e ter o mercado do parto dominado pelos homens, considerados mais cultos e sábios, por toda a Europa. Assim açougueiros e pseudo-médicos entraram na dança. Era de se imaginar que para facilitar o seu trabalho eles foram os responsáveis por tirar a mulher da posição natural de cócoras ou sentada e a colocaram deitada, contra a gravidade. Segundo a etiqueta da epoca os homens-parteiros nao podiam ver as partes íntimas da mulher, então a maioria dos partos passou a ser realizado debaixo de panos ou até mesmo de olhos vendados. Vixe-Maria!

Durante esse período da história a inquisição estava em seu auge e consequentemente as parteiras também foram alvo fácil para as acusações de prática de bruxaria. E ai se alguma fatalidade ocorresse durante um parto. Assim, muitas parteiras foram parar na fogueira. Diz-se que muitas dessas inquisições foram incentivadas pelos “parteiros”, na ganância de dominar o negócio lucrativo.

Só em 1813, o segredo do fórceps dos Chamberlens foi descoberto com a morte de seu último dono. O instrumento consistia de duas rudimentares colheronas, que eram colocadas uma de cada vez dentro da vagina segurando a cabeça do bebê, que então era puxado para fora. E assim, um dos segredos médicos mais bem guardados da história foi revelado.

Desde a era dos Chamberlens, até os dias atuais, o uso do fórceps desperta controversias. Ele já salvou muitas vidas e tirou outras. Teve momentos da historia em que ele foi rechadado e momentos em que ele foi amplamente usado e requisitado. Mas uma coisa é certa, ele foi o grande responsável pelo início da mecanização do parto e das intervenções cirúrgicas.

No final do século 19, dar a luz em maternidades passou o a ser a norma. A mentalidade machista da época insistia em açoitar as parteiras e convencer as mulheres de que elas estariam melhores nas mãos dos hospitais dominados por doutores. Entretanto, foi nesse período que o número de casos de mortes durante o parto atingiu o seu pico e ter um filho era como uma roleta russa. A grande maioria das mortes se dava devido a infecções. Ainda não havia conhecimento dos germes e ninguém se preocupava em lavar as mãos nos hospitais. Hoje se sabe que as mulheres que permaneciam em casa na hora do parto, na companhia de uma parteira, tinham melhores chances de sobreviver.

No entanto, o vínculo de dar a luz e morrer tomou proporções assustadoras e transformou o ato natural do parto em um momento de apreensão e medo. A mulher deposita no outro, geralmente o médico, a responsabilidade do parto. Ela quer garantias e não quer sentir dor. E foi ai que ela perdeu sua força, seu instinto animal, seu momento de êxtase.

Fontes:
“Get Me Out – A History of Childbrith”, Randi Hutter Epstein.
http://amandagreavette.blogspot.com/ - artista plástica e autora da imagem ao lado.

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Veja condena o parto domiciliar

Um BUUUUUU bem alto para a revista Veja dessa semana. Ela traz uma nota condenando o parto feito em casa e nos convida a ler mais sobre o assunto tão pobremente abordado no site:  http://veja.abril.com.br/noticia/saude/parto-domiciliar-quando-o-risco-nao-e-necessario
Primeiramente, só queria dizer que essa matéria (não assinada) só pode ter sido escrita por alguém bem inexperiente no quesito parto e principalmente no quesito jornalismo, o que beira a irresponsabilidade.   Até parece que resolveram publicar uma nota divulgada pelos “Conselhos de Medicina” sem checar os fatos.  Esse é a velha “caça as bruxas”, que nós mulheres já estamos mais do que cansadas.
Eu tive dois partos normais hospitalares, um feito nos EUA e outro em um hospital, com o selo de humanizado, no interior de São Paulo. Aqui, como a única “louca” com plano de saúde que desejava um parto normal, vivi na pele os absurdos do sistema, como ter as pernas amarradas na hora de dar a luz (isso sim uma operação de altíssimo risco).  
Enquanto os hospitais brasileiros não assegurem as mulheres o mínimo de dignidade nesse momento único, que continue em ascensão os partos domiciliares.
3 PRÁTICAS QUE DEVERIAM SER ABOLIDAS DAS MATERNIDADES BRASILEIRAS (só para ser simpática e citar apenas algumas):
- Uso indiscriminado da ocitocina (hormônio da contração) sintética, chamada de sorinho. Nenhum hospital quer saber de mulher em trabalho de parto por mais de 4 horas, o que basicamente são 95% das mulheres, principalmente em se tratando da primeira gravidez. O uso do “sorinho” acelera o ritmo das contrações de uma maneira brutal, tanto para a mãe quanto para o bebê. As dores são muito mais intensas e difíceis de suportar, o que leva ao uso de anestésicos e até mesmo do desejo por uma cesárea. O trabalho de parto natural dura em média 16 horas, podendo variar de 4 a 24 horas ou mais. O que dá tempo para a mulher se adaptar as dores naturais da contração até o momento da expulsão do bebê. Já para a criança, o trabalha de parto a prepara para entrar no mundo de maneira saudável e eficiente através dos hormônios liberados e da massagem gradual das contrações.      
- Prática indiscriminada do corte do períneo ou episiotomia. Corte cirúrgico feito na musculatura entre a vagina e o ânus para facilitar a saída do bebê.  O objetivo é evitar com que a região rasque no momento da expulsão do bebê. Segundo estudos feitos na França, menos de 5% das mulheres sofrem com esse problema, que depois é solucionado com pontos no local, com certeza nada agradável. No meu ponto de vista, cortar antes para se evitar que rasque depois é mais um daqueles nonsense apregoadas por médicos ineficientes e que acreditam que mulher tem que ter filho deitada e com a perna amarrada, como no meu caso. Coloca a mulherada de cócoras e vocês vão ver os bichinhos saindo rapidinho. 
Só para deixar o registro. Nos meus dois partos não houve necessidade do corte. O primeiro porque foi nos EUA e lá essa prática é só utilizada em situações de emergência.  Aqui, porque eu havia escrito uma carta ameaçando quem tocasse no meu períneo. Mas com a perna amarrada, lamentavelmente foi necessário o uso do fórceps.
- A impossibilidade de se movimentar durante o parto. Ter contrações presa a uma cama é garantia de maximizar a dor do parto. Eu já passei  por isso e te garanto.  Você já teve cólica? Agora você no pico da dor chapada em uma cama. Esse é o tipo de dor em que instintivamente nos encolhemos na posição fetal, com o barrigão fica difícil, então a posição de cócoras é o que mais se aproxima desse encolhimento, portanto a mais indicada. Durante o trabalho de parto toda a mulher deve ter a oportunidade de andar, se agachar, tomar uma ducha. A movimentação alivia a tensão, a dor e principalmente ajuda na descida e posicionamento correto do bebê. Porém, os hospitais adoram o auxilio de equipamentos que nos privam desse direito. O uso do “sorinho” intravenoso e do monitor fetal são duas práticas que nos amarram a cama. Já na hora do bebê nascer, somos levadas para o centro cirúrgico, lugar que não tem nada de propício para dar a luz, e lá as coisas podem ser ainda piores. É dada uma bela anestesia que te paralisa da cintura para baixo, amarram a sua perna, cortam o seu períneo e dizem: faz força filhinha, assim o seu bebê não vai nascer hoje... Esses procedimentos sim causam complicações e o os “Conselhos de Medicina” deveriam considerar arriscados.

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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Crônica: Maria, a Maternidade e o Sexo


Ela não era gorda nem magra, bonita nem feia, rica nem pobre, tarada nem santa. Maria, aos 29 anos, era o perfeito exemplo de todas as mulheres do mundo. Sua mãe, descendente de alemães, sempre lhe disse que poderia ser o que quiser na vida. Seu pai, uma mistura de libanês e angolano, queria que ela fosse advogada, assim como ele. Mas ela havia optado pela vida de publicitária descolada e tinha um bom emprego como redatora. Não tinha muitos problemas existenciais, tinha amigos e namorados, apenas se questionava se seus textos vendiam falsas promessas. Porém, um tampinha nas costas parabenizando sua criatividade sempre a colocava nos trilhos da complacência.
Até que um belo dia Maria se apaixonou, amor à primeira vista, alma gêmea. Tudo era cor-de-rosa. E sua vida sexual, pink fluorescente. Eles se atracavam em qualquer lugar, a qualquer hora. Banheiro masculino do cinema, banheiro feminino do night club, cobertura da agência na hora do almoço, bancada de trabalho dele no fim do expediente. O sexo rolava fácil e sem complicações. A alquimia perfeita. Um ano depois resolveram se casar.
Maria não tinha dúvidas sobre essa importante decisão, era o curso natural das coisas. Ela só não queria abdicar do seu nome de solteira, o que simbolizava sua individualidade. Também não abdicaria do edredom lilás com estampa de cerejeiras japonesas que acabara de comprar na MMartan, bem feminino para o novo quarto unissex do casal, mas ela tinha certeza de que o futuro marido não repararia. Então, eles se casaram.
Gravidez
Alguns meses depois do casamento, Maria já não tinha mais dedos para contar as inúmeras cutucadas sobre gravidez que já havia recebido, da mãe, da sogra, da nora, da tia, da amiga, do porteiro e da avó. Mas ela desconversava com um sorriso maroto e dizia que ainda estava na fase de curtir o maridão. Ate que o relógio biológico começou a bater, e forte.
Derrepente bebês começaram a saltar a sua frente, no shopping, no supermercado, na rua. Será que só ela estava notando ou aquilo fazia parte de um novo experimento extraterrestre de repovoamento do planeta. Até suas melhores amigas entraram na onda, uma acabara de ter gêmeos e a outra estava grávida. Ana, uma grande amiga desde a infância, já tinha dois filhos, mas ela há tempos não participava do grupo das mais chegadas, a primeira gravidez logo no final da faculdade, havia mudado o curso da vida da amiga para bem longe e agora elas só se viam em ocasiões muito especiais.   
Será que tudo isso era um sinal, será que estava na hora dela ser mãe? Seria muito divertido decorar o quartinho do bebê. Eles estavam bem financeiramente e grana não seria um empecilho. Já ouvira falar sobre a nova lei de Licença Maternidade, que lhe daria cinco meses para ficar com o bebê e depois era só achar um berçário de confiança para voltar ao trabalho. O marido também se entusiasmou com a idéia, seria divertido ensinar um mini Jr. a jogar bola e a surfar. Assim, Maria engravidou.
O primeiro trimestre foi de canseira e sigilo. O segundo, uma delicia. Contou para deus e o mundo, a barriga começou a aparecer e descobriram o sexo da filhota. Também não conseguia resistir às roupinhas miniaturas da Zara e ficou radiante ao descobrir que a C&A tinha uma linha de bebês fofa e baratinha. Até que a velha e experiente amiga Ana voltou à cena. “Acho melhor você trocar metade dessas roupinhas RN e P por M e G, o bebê não vai ter tempo de usar". O bom e velho balde de água fria.
Ana também perguntou se ela teria parto normal ou cesárea. Mas Maria ainda não havia pensado nisso. A sua obstetra também não havia tido a audácia de tocar no assunto, já que prescrever pedidos de ultrassom e analisar a tabelinha de peso era o nível de interação que a renomada médica considerava suficiente.
No final do segundo trimestre, o sexo, que até então fazia parte da rotina do casal, começou a ficar de lado. Maria estava cansada da posição de quatro ou de pé na pia do banheiro. Também já não sentia tesão, era mais para agradar o marido; que por sua vez começou a encanar que iria machucar o bebê. E sem sexo o casal ficou até o final da gravidez.  
Parto
Na 36ª semana, com o quartinho pronto, gaveteiro abarrotado, mamadeiras, chupetas e fraldas nos seus devidos lugares, e últimos trabalhos concluídos e aprovados, Maria finalmente se lembrou da velha pergunta. Afinal, a filha nasceria de parto normal ou cesárea? E assim, resolveu pesquisar sobre o assunto.
De 16 mães que conhecia, apenas uma havia tido os três filhos de parto normal, a faxineiras da agência. As outras 15, incluindo sua mãe, obstetra e melhores amigas, fizeram cesárea. E ai ela quis saber o porquê. Quadril estreito, pressão alta, medo da dor, férias do médico, dia do aniversário do pai, melhor para a saúde do bebê, foram algumas das explicações.
Na consulta pré-natal, enquanto ritualisticamente esperava sua vez para ser atendida, com uma hora e meia de atraso, Maria resolveu perguntar para as outras pacientes que aguardavam sobre a opção de parto. Em uníssono responderam: cesárea! Para conhecedir com as férias do marido, ser do signo de leão e depois de uma cesárea, só cesárea disseram.
Enquanto a obstetra ouvia o coração do bebê, Maria disse que gostaria de ter parto normal, o coração acelerou, não do bebê, mas da médica. Tudo bem, mas primeiro ela tinha que entender que nem todas as mulheres eram capazes, que o trabalho de parto doía muito e que os bebês nasciam mais feinhos, quer dizer, amassadinhos.  
Entretanto, Maria que às vezes gostava de ir contra a maré, lembrou-se de ter ajudado a dar à luz a gata da avó; de todos os filmes em que as mulheres eram levadas as pressas para o hospital aos berros e pariam lindos bebês. Também tinha ficado fã do programa americano “Babies” e se toda aquela mulherada tinha parto normal, ela também podia.
Até que a 40ª semana chegou e nada de contração, dores e de bolsa arrebentar. E sem mais nem menos Maria saiu do consultório direto para a maternidade. A médica havia decretado estado de cesárea! “Temos que tirar essa menina daí, ela pode passar do ponto”. E de supetão, Maria entrou para mais uma alarmante estatística do país, onde 90 % dos partos realizados no sistema privado de saúde são cesarianas*. Fazer o que, não teve jeito mesmo, foi a maneira de se consolar e suportar a dor da cirurgia.
Pós-parto
Amamentar também não estava sendo fácil, mas isso Maria fazia questão, amamentar sua bichinha. Sua amiga, mãe de gêmeos, não agüentou o tranco, a outra não quis colocar a operação dos seios em risco. Ambas estavam gastando rios de dinheiro com fórmulas que dizem imitar o leite materno. Se é que isso era possível. Uma vez, Maria havia criado a embalagem de uma marca famosa e sem saber o porquê, ficou uma semana deprimida.
Na primeira consulta ginecológica pós-parto, a médica, empolgadíssima, disse que em trinta dias o sexo estaria liberado. Maria tentou esboçar um sorriso, mas ess era a última coisa que passava por sua cabeça. Em contrapartida, ela sabia que o marido já havia começado a contar os dias. Ele já vinha se esfregando com segundas intenções, mas ela tinha várias desculpas para não magoar o marido: ainda faltam quinze dias, dez dias, cinco dias até que no dia H, Maria se trancou no quarto e decretou que não queria ver nem falar com ninguém. Assim passou o dia e a noite, postada na cama a dar de mamar e a cochilar com a sua bezerrinha.
Os dias se passaram e Maria começou a notar que mais nada no mundo atraia seu interesse. A pilha de jornal e revistas intocáveis na poltrona da sala. Em que as manchetes anunciavam um mundo que ela não queria para a sua bonequinha. Já a sua adorada "Vogue" havia atingido o auge da “extraterrealidade”. Pensou em assinar uma dessas revistas sobre mães e bebês, mas já sabia que não teria tempo de ler, era incrível como não tinha tempo para nada. Entre troca de fraldas, mamadas, uma ajeitada na casa e tentativas frustradas de se exercitar, ela só queria saber de colocar o sono em dia e descobrir o que fazer com o bebê assim que a licença maternidade terminasse.
De camisetão e rabo de cavalo, seu novo figurino, às vezes saia para dar um passeio pelo bairro e sempre parava na banca para ver que atriz estava grávida e que cara tinha os bebês dos famosos. Ela se recusava a comprar essas revistas, as de salão de beleza, porque sempre havia tido acesso fácil e gratuito a esse exuberante mundo de fofocas. Porém, desde que sua filhinha nasceu ela não fazia mais a unha, não depilava e muito menos escova no cabelo.
Sexo
Mas entre todas as mudanças em curso no mundo de Maria, o sexo era o que mais lhe entristecia. Nos últimos cinco meses, ela consentia, mas não tinha mais tesão. Tinha a sensação de estar traindo o marido com sua nova paixão, o bebê. Ela tinha certeza de que o amava, talvez ainda mais, mas esse amor não vinha acompanhado de beijo na boca e olhares com segundas intenções. Ela adorava sua mão forte que delicadamente segurava o bebê e os lábios carnudos doados à filha como fotocópia reduzida. Mas todo esse amor se transformava em pavor assim que ele começa a tocar suas costas na cama, beijar seu pescoço na pia da cozinha ou colocar as mesmas mãos fortes em seu peito enquanto assistiam TV, ah, esse ultimo era capaz de fazer Maria saltar de terror.
O que esta acontecendo comigo? Ana, a velha amiga, disse que era para ela não se preocupar, que acontecia com todas. Era a maneira sabia da mãe-natureza de evitar que outro bebê surgisse antes da hora. O problema era que homem nenhum entendia. Cabia as mulheres saber administrar a situação. A amiga foi além e dividiu com ela varias técnicas de dispersão: dor de cabeça, fingir sono profundo durante a melhor cena da novela, ir dormir mais cedo. Mas Maria não achava certo e resolveu ser franca com o marido.  Estipulou algumas regras: sexo três vezes por semana e nunca tocar nos peitos, que agora eram exclusivos do bebê. E assim tentou ser sexualmente feliz.
Tinha saudade da sexy Maria de outrora, mas não sentia a mínima falta de sexo. Deseja dormir abraçada com o marido, mas qualquer contato na cama era interpretado como sinal verde, então ela evitava esse conforto. Sabia que dessa maneira o marido era presa fácil para qualquer mocinha atirada. Às vezes, até desejava o pior para ver se assim ele lhe daria paz, mas rapidamente apagava o pensamento, não seria capaz de aturar a dor de uma traição. Era melhor simplesmente seguir as regras.
Um ano se passou. Maria havia voltado ao trabalho, que apesar de aniquilar qualquer tempo dedicado somente a ela, havia lhe devolvido certa sanidade para se relacionar com o mundo. O bebê havia se adaptado bem ao melhor berçário do bairro, que custava a metade do seu salário, mas que prometia introduzir a criança ao inglês e ao francês; tinha somente brinquedos educativos dinamarqueses; além de utilizar técnicas indianas de relaxamento. Ela e o marido também sabiam dividir com igualdade todos os afazeres domésticos. Viajavam para o litoral nos finais de semana prolongados. E tinham um seleto grupo de amigos, todos com filhos pequenos.
Somente uma coisa ainda perturbava a existência de Maria, o sexo. Para o marido a regrinha dos três era eficiente, mas para ela deixava muito a desejar. Até que uma bela noite, após um papai-mamãe rápido, ela sentou-se sozinha em frente à TV. Zapeando pelos canais, um programa sobre sexo lhe atraiu a atenção. Cientistas analisavam as respostas do cérebro ao cheiro, visão, tato de parceiros sexuais e assim procuravam uma resposta para uma vida sexual satisfatória e feliz. Para Maria nada daquilo parecia elucidar o seu problema. Até que um casal beirando aos 50 anos, ambos com satisfação no olhar, deu o seu depoimento.
Olhando diretamente para a câmera, a senhora - mulher, nem bonita nem feia, nem pobre nem rica, nem gorda nem magra, disse a frase que mudaria a vida de Maria. “A sexualidade vem da decisão de se sentir sexual e sensual, esta tudo na cabeça”. Maria desligou a TV, respirou fundo e decidiu que no dia seguinte voltaria para casa com a lingerie mais provocante que encontrasse.
Fim

*Pesquisa realizada pela UNICAMP e divulgada no dia 11 de agosto de 2011